Como fazer concessões na negociação sem perder margem

Concessões na negociação

Fazer concessões na negociação exige critério, preparo e clareza de margem. Afinal, toda vez que o consultor reduz preço, amplia prazo, flexibiliza uma condição ou entrega algo a mais, ele está tomando uma decisão que pode proteger o acordo ou comprometer o valor da venda.

Aplicar desconto em vendas é uma das formas mais comuns de concessão, mas não é a única. Uma concessão também pode aparecer em um prazo maior, em uma entrega adicional, em uma condição comercial mais flexível, em uma antecipação de serviço ou em qualquer movimento que gere valor para o outro lado e custo para quem concede.

Por isso, o momento de negociar preços é temido por muitos consultores de vendas. Ele exige preparo, critério e conhecimento das técnicas e táticas de negociação. Um bom acordo deve atender aos interesses legítimos das duas partes. Além disso, não pode comprometer de forma injusta nenhum dos lados.

Nesse contexto, a eficácia de uma concessão depende da habilidade do negociador em conciliar as necessidades de ambos os lados. Em alguns casos, isso pode envolver barganhas. Em outros, pode exigir apenas clareza, firmeza e uma boa leitura do que realmente está em jogo.

E é sobre isso que trato neste artigo: como fazer concessões na negociação sem perder margem, sem fragilizar a proposta e sem criar vícios para futuras conversas comerciais. Ao final, apresento cinco pontos que levam uma concessão ao sucesso e que, se utilizados com critério, ajudam o consultor a evitar arrependimentos depois.


Tenha consciência do que significa uma concessão

Antes de tudo, é preciso compreender o peso de uma concessão. Um ditado popular afirma que “quem paga mal, paga duas vezes”. Eu diria: “quem vende mal, se arrepende depois”.

Nesse sentido, compreender o impacto de uma concessão é o primeiro passo para decidir se vale a pena ceder em uma negociação. Essa consciência ajuda o consultor a evitar decisões apressadas, feitas apenas para aliviar a pressão do momento ou para fechar uma venda a qualquer custo.

Mas como fazer isso na prática?

Você pode fazer isso por meio de perguntas que projetem as consequências da concessão para as duas partes e para futuros negócios. Veja alguns exemplos:

  1. O que esta concessão significa para o outro lado?
  2. Quanto vai custar para mim e para minha empresa?
  3. Quanto esta concessão contribui para futuros negócios?

Ao responder a essas perguntas, o consultor começa a ter mais clareza para decidir se deve ou não fazer uma concessão.

Depois dessa análise inicial, o próximo passo é entender se a concessão ainda está dentro de uma zona segura de acordo.


Calcule as consequências de negociar fora da ZOPA

A ZOPA, ou Zona de Possível Acordo, é a faixa em que o acordo ainda faz sentido para os dois lados. Nessa faixa, a chance de acordo é maior. Por isso, é nela que o consultor deve concentrar seus esforços.

No entanto, quando a negociação sai dessa área, as consequências precisam ser calculadas com muito cuidado. Negociar fora da ZOPA pode causar desde o desgaste da relação comercial até a perda quase total da margem da venda.

Esse cálculo de risco não é apenas técnico. Ele envolve estratégia de mercado, margem, posicionamento e futuro relacionamento com o cliente. Em outras palavras, ao negociar fora da ZOPA, o consultor não está apenas discutindo preço. Ele está tomando uma decisão que pode afetar a forma como o cliente percebe valor, limite e autoridade comercial.

Por isso, antes de aceitar uma condição muito abaixo do desejável, vale perguntar: essa concessão preserva o negócio ou apenas posterga um problema?


Se eu fizer ISSO, então você me concede AQUILO

Além disso, uma concessão nunca deve ser tratada como favor. Ela precisa ser conduzida como troca.

Uma concessão precisa ser encarada como troca. Em outras palavras, eu cedo em algum ponto para obter algo relevante em contrapartida. Quando isso não acontece, a concessão deixa de ser estratégia e passa a ser doação.

Para isso, antes de conceder, vale responder a quatro perguntas:

  • Quais são as minhas moedas de troca?  Pode ser prazo de pagamento, volume, mix do portfólio, condições comerciais, contrato mais longo ou abertura para novos negócios. Dentro dessas possibilidades, onde existe maior flexibilidade?
  • O que eu vou ganhar em troca dessa concessão?  Que oportunidades podem ser colocadas à mesa quando eu conceder algo?
  • Como vou justificar essa concessão para o cliente?  E, além disso, como vou justificá-la internamente para minha empresa? Sem defesa, a concessão deixa de ser estratégia e vira doação.
  • Existem outras formas de fechar o acordo sem precisar fazer essa concessão?  Muitas vezes, o consultor reduz preço antes de explorar outras alternativas de valor.


Esse cuidado é essencial porque o comprador também está testando limites. Ele observa como o consultor reage, quais argumentos utiliza, em que momento cede e até onde está disposto a ir.

Portanto, cada concessão comunica algo. Ela pode comunicar flexibilidade e inteligência comercial. Mas também pode comunicar fragilidade, insegurança e falta de critério.


5 pontos que levam uma concessão ao sucesso

Depois de avaliar impacto, ZOPA e moedas de troca, chega o momento de estruturar a concessão.

Caso chegue à conclusão de que é correto realizar uma concessão, tenha em mente os seguintes pontos:

  1. O histórico de concessões daquela negociação
    Vou realizar uma concessão uma única vez? Duas? Quantas? Essa definição evita que a negociação vire uma sequência interminável de pequenas perdas.
  2. Os degraus que irei percorrer
    O consultor precisa saber qual é o valor desejável, qual é o valor aceitável e qual é o valor-limite. Sem essa clareza, ele pode ceder mais do que deveria.
  3. O momento certo para avançar em cada degrau
    Nem toda concessão deve ser feita no início da negociação. Por isso, é importante definir o momento certo para propor ou aceitar uma concessão.
  4. Os argumentos que farão o cliente valorizar a concessão
    Se o cliente não percebe o valor da concessão, ele tende a pedir mais. Portanto, toda concessão precisa ser explicada, contextualizada e defendida.
  5. A forma de comunicar o limite
    O consultor precisa saber como dizer: “daqui para frente, não consigo avançar”. Esse limite deve ser comunicado com firmeza, mas sem romper a relação.


Esses cinco pontos ajudam o consultor a transformar a concessão em uma decisão planejada. Assim, ele deixa de reagir apenas à pressão do comprador e passa a conduzir melhor a negociação.


Os cuidados que devemos ter ao realizar uma concessão

Por fim, toda concessão precisa ter seu impacto calculado. Isso vale tanto para o processo quanto para o resultado da negociação. Por isso, o consultor deve observar alguns cuidados antes de ceder.


1. Não seja vítima das pequenas concessões sucessivas

Não seja vítima da tática do “de grão em grão, a galinha enche o papo”. Muitas vezes, o comprador pede pequenas concessões sucessivas até chegar ao preço que deseja.

O problema é que, isoladamente, cada pedido parece pequeno. No entanto, quando somados, esses pedidos podem comprometer margem, prazo, entrega, escopo e valor percebido.


2. Não confunda pergunta com objeção

Além disso, cuidado para não confundir pergunta com objeção e acabar concedendo antes mesmo de receber uma solicitação clara da outra parte.

Um cliente pode perguntar “tem desconto?” apenas para testar possibilidades. Isso não significa, necessariamente, que o desconto seja decisivo para fechar o acordo.

Antes de ceder, investigue. Pergunte, por exemplo: “O desconto é o único ponto que impede o avanço da proposta?” ou “Além do preço, há algum outro ponto que precisamos ajustar para fechar?”


3. Evite concessões apressadas

Você tende a se arrepender das concessões feitas de forma apressada, imediatista e sem critério. Quando o consultor cede rápido demais, transmite a sensação de que havia gordura na proposta.

Como consequência, o cliente pode imaginar que ainda há mais espaço para negociar. Assim, uma concessão que deveria aproximar o acordo acaba abrindo novas rodadas de pressão.


4. Observe os vícios que a concessão pode criar

Também é importante observar os vícios que uma concessão mal conduzida pode alimentar no comprador em futuras negociações.

Se o cliente aprende que basta pressionar para conseguir desconto, ele provavelmente repetirá esse comportamento nas próximas compras. Desse modo, o problema deixa de ser apenas aquela negociação e passa a afetar a relação comercial ao longo do tempo.


5. Respeite o estilo pessoal da outra parte

Por fim, respeite o estilo pessoal da outra parte. Alguns negociadores são mais diretos e não gostam de longos jogos de barganha.

Há clientes que preferem objetividade, clareza e limite. Outros esperam mais movimento na negociação. O consultor precisa perceber essas diferenças para não transformar a concessão em um jogo desgastante.


O equilíbrio entre ceder e sustentar valor

Ao fazer uma concessão, o consultor precisa agir como um equilibrista em um fio estreito.

Por um lado, ceder demais pode levá-lo a perder o equilíbrio. Por outro, não ceder em nenhum ponto pode derrubar boas oportunidades. A arte das concessões na negociação exige destreza, preparo e discernimento.

Saber se posicionar nesse limite do acordo é uma competência essencial. É nesse ponto de equilíbrio, entre demandas e interesses, que surgem resultados mais satisfatórios e duradouros para ambas as partes.

No fim, fazer concessões na negociação não é apenas ceder para fechar um acordo. É tomar uma decisão comercial que precisa preservar margem, sustentar valor e manter a relação saudável para futuras negociações.

Por isso, antes de conceder, pense. Calcule. Peça algo em troca. Defenda sua proposta. E, principalmente, tenha clareza do limite que não deve ser ultrapassado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *