Técnicas de negociação para conversas difíceis

Negociação, comunicação e vendas - MTHD

O ambientalista-vegano e o agro: 4 técnicas de negociação para conversas difíceis

Sou um amante de um bom churrasco: ao estilo parrilla gaúcha, o argentino ou o tipicamente brasileiro. Se for numa sexta-feira ao final do dia, acompanhado de vinagrete, farofa e uma cerveja gelada, melhor ainda. 


Mas nem todos têm o mesmo gosto e há os que condenam não só o consumo da proteína animal como também o agronegócio. É preciso aprender a ter conversas difíceis.


Foi o que aconteceu comigo às vésperas do segundo turno para presidente e no auge das disputas ideológicas. Quando me dei conta, estava envolvido em uma conversa prá lá de difícil com um férreo defensor do veganismo. 


Colunista de temas ambientais em uma revista cool, defendia sua causa com posicionamentos e ataques impetuosos ao agronegócio


A sensação que tive era de que todo aquele fervor depositado em seus atraentes artigos havia encontrado um personagem perfeito para materializar alguém contrário a sua causa: um professor de business, defensor do agronegócio e amante do churrasco. 


Senti que queria tirar-me da cadeira e me servir como um banquete a outro colega que nos acompanhava e que se apavorava com o possível desfecho da conversa. Aquela cena tinha cheiro de churrasco queimado!


Mas, como todo bom churrasco tem aquele toque especial, faz-se necessário acrescentar a essa história que o corte escolhido para assar e ser servido – eu, no caso –, é também um férreo defensor do meio ambiente, um professor de negociação, um amante da comunicação e da pluralidade de ideias. 


E, a seguir, estão os instrumentos que utilizei para ter uma conversa difícil de forma saudável. Em quatro técnicas, vou ensiná-los a como ter conversas difíceis, transformando um aparente e desagradável churrasco numa prazerosa experiência gastronômica, com direito a picanha suculenta e hambúrguer vegano.

1. Não existem portas fechadas, existem chaves erradas

Essa célebre frase do psiquiatra Augusto Cury é o ponto de partida para transformar uma conversa difícil numa discussão civilizada e enriquecedora. O que torna uma conversa difícil é a falta de pluralidade das ideias e do apreço por aquilo que é diferente da forma como pensamos. 


Neste sentido, quando a outra parte não está aberta ou receptiva ao que é diferente, não é a sua chave, aquela repleta de saberes e verdades, que irá abrir as portas da mente do outro. É preciso sair da sua posição em direção a buscar outras chaves. Veja como fiz a seguir.

2. Passe para o lado do outro e faça o oposto do que a outra parte imaginaria

Em situações como essa, a outra parte espera uma reação ou ruptura, o que tornaria a conversa ainda mais difícil. Fiz o oposto. Com formação de jornalista e ator, era notável sua eloquência, proferida em frases impactantes e bem construídas, que esbanjavam autoridade. 


Seus exemplos eram atualizadíssimos e não lhe faltava cases de sucesso da recém-lançada indústria de carne vegana. Deixei-o falar, demonstrei curiosidade ao pedir detalhes do modelo produtivo e dos resultados de pesquisas de aceitação do consumidor. 


Com essa atitude, cruzei a fronteira com o objetivo de desarmá-lo e o surpreendi com interesse genuíno de aprender outro ponto de vista, diferente do meu. 

3. Comece pelo porquê, antes de “o que” e do “como”

Negociação e vendas

Durante a conversa, foram inúmeros os argumentos e justificativas para defender o consumo da proteína vegetal como fonte primária da alimentação humana e não para alimentar animais. 


Segundo ele, a razão pela qual o mundo passa fome não é pela falta de alimento, mas pelo destino inadequado dado àquilo que é produzido. E claro, entre um argumento e outro, dá-lhe lenha no churrasco! Naquele discurso acalorado, qualquer contra-argumento que eu utilizasse seria veementemente refutado. 


Foi aí que me lembrei do “comece pelo porquê”, e o fiz por meio do uso de uma pergunta impactante, com o objetivo de discutir o que é mais importante:

“Segundo esse raciocínio, não estaríamos impondo uma inversão radical em uma cultura humana milenar de alimentar-se de carne?” 


O silêncio perdurou por alguns segundos. Definitivamente, meu colega não havia levado em consideração, em seus posicionamentos sobre alimentação, a temática cultura. E justamente alguém que trabalha com: cultura! 

4. Substitua os argumentos por perguntas

Nosso modelo de argumentação é baseado em “justifique sua resposta”, num esforço de usar um conjunto de conhecimentos para refutar o ponto de vista do outro e tentar impor nossa visão de mundo sobre os fatos. 


Essa tática pode até funcionar quando temos um trunfo irrefutável em mãos. Não era esse o caso, pois a conversa se baseava em visões de mundo diferentes, cada qual com suas verdades. Mas tem um detalhe: os assuntos “ambiente”, “agro” e “veganismo” são temas que não se excluem. Pelo contrário, convergem. 


Foi quando, utilizando uma analogia em forma de pergunta, o fiz repensar seu argumento de generalização da ação do agronegócio nas causas sociais e ambientais: “Se o botão dessa camisa cair, ela não poderia mais ser usada?”. Não se pode condenar uma camisa pelo problema em um dos seus botões. 


Da mesma forma, não é correto condenar um setor inteiro por práticas isoladas. Com essa tática, procurei fazê-lo enxergar outras vertentes que, normalmente, ficam sob o nevoeiro quando se defende uma causa de forma enfática. Tal como ele me trouxe outras visões sobre veganismo e meio ambiente, eu o fiz repensar.


Por que evitamos conversas difíceis?
 Acredito que por aspectos como traços de personalidade, características culturais e por falta de educação para a diversidade. Mas também entendo que, ao aplicar as técnicas apresentadas, elevamos as conversas difíceis ao nível de diálogos saudáveis. 


Conversas difíceis são necessárias e podemos aprender a conduzi-las.


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